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Texto, uma editora do grupo LeYa leYa

Gestão do comportamento dos alunos

Genericamente, a gestão do comportamento dos alunos diz respeito a todas as iniciativas que a escola e os professores levem a cabo, no sentido de proporcionarem atividades que se constituam como experiências de aprendizagens significativas (o que inclui a gestão de espaços, materiais, tempos e agrupamento de alunos) e que possam ter impacto nos comportamentos dos alunos.
Os comportamentos são susceptíveis de serem modificados em função dos contextos em que ocorrem. Consideram-se aqui dois tipos de factores que afetam os contextos:

  • os aspectos físicos e humanos da escola e da sala de aula – antecedentes dos comportamentos;

  • as respostas e as reações do professor e dos outros alunos – consequências dos comportamentos. A compreensão do impacto das respostas pode ajudar os professores a reforçar padrões de comportamentos adequados e não contribuir para manter, mesmo inadvertidamente, comportamentos inadequados.

A gestão do comportamento dos alunos parte de alguns pressupostos que será importante explicitar (Docking, 1993).
De acordo com estes pressupostos, recomendam-se estratégias preventivas e pró-ativas, estilos de resposta ao comportamento dos alunos que podem ser descritos de acordo com 5 princípios de gestão: Previsão, Objectividade, Avaliação/Responsabilidade, Construtividade e Responsabilidade Coletiva.
Passaremos de seguida em revista este cinco princípios, procurando ilustrar com exemplos práticos cada um deles.


Previsão

Diz respeito à identificação e resposta a problemas que são previsíveis através da formulação de regras apropriadas relativas a situações concretas. São formuladas as seguintes recomendações:

  • poucas regras;
  • regras relativas a aspetos concretos;
  • regras realistas;
  • regras formuladas em termos positivos;
  • regras formuladas como compromisso partilhado e não como uma ordem, de modo a encorajar sentimentos de responsabilidade;
  • regras implementadas através de anúncios, antes do início de atividades em que certos comportamentos podem ocorrer.


Ilustraremos o princípio da Previsão com um exemplo retirado de Webster-Stratton (1999). Esta autora usa uma forma de cumprimento, hoje habitual nos jovens («dá cá mais cinco»), em que se bate com a mão aberta na mão aberta do outro. É frequentemente usada entre desportistas como forma de felicitação e encorajamento. Neste nosso caso, trata-se de um cartaz representando uma mão e em que, para cada dedo, se inscreve uma regra adequada à situação (ex: para parte expositiva de uma aula: olhos no professor, sentados direitos, pés no chão, em silêncio, levantar a mão quando se quer fazer uma pergunta).
Depois de acordadas as regras apropriadas a dada situação e elaborado o cartaz, o professor poderá, quando adequado, chamar a atenção de um ou mais alunos usando o procedimento «dá cá mais cinco» – estendendo a sua mão ao(s) aluno(s), batendo com a mão aberta na mão aberta do(s) aluno(s).
De acordo com a autora citada, este procedimento permite:

- lembrar aos alunos quais as regras que devem, numa situação concreta, guiar os comportamentos – como é que os alunos se devem comportar;
- lembrá-lo de uma forma que não se torne maçadora nem para o professor (se tem de a repetir várias vezes), nem para os alunos a quem estas chamadas de atenção são dirigidas (várias vezes). Isto é, diminui a carga negativa que as chamadas de atenção têm, quer para professores quer para os alunos.


Objetividade

Os professores bons gestores são aqueles que conseguem criar na sala de aula uma atmosfera que, sendo calma e relaxada, transpira atividade virada para objectivos. Isto é, os bons gestores têm presente os seus objectivos e perseguem-nos. São também capazes de transmitir esses objetivos aos alunos. Apontam-se algumas pistas para a consecução deste pressuposto:

a) a linguagem corporal e o uso da voz;

A presença física do professor, transmitida pela sua postura e tom de voz, são interpretados pelos alunos, não só para apreciarem que «tipo» de professor têm pela frente, como para avaliarem as situações à medida que se desenrolam. A expressão corporal e a voz são duas grandes ferramentas dos professores. A investigação tem possibilitado apontar algumas pistas sobre a sua eficaz utilização, designadamente, transmitir aos alunos uma imagem de professor que é assertivo, sem parecer ameaçador, flexível sem parecer indeciso. Alguns aspetos importantes: voz projetada e modulada – não gritar; postura – estar em pé de forma relaxada, evitar ombros curvados, braços cruzados; aproximar-se dos alunos para reduzir distância social; acenar positivamente, sorrir, manter contacto visual e mostrar interesse quando o aluno está a falar; sentar-se ou baixar-se ao nível do aluno para facilitar contacto com o olhar, especialmente com os alunos mais novos.

b) o início da lição;

Muitas vezes, a forma como se inicia a lição é determinante para todo o seu desenrolar. Costuma falar-se de uma fase de entrada na sala de aula e numa fase de instalação, antes de se dar início à lição propriamente dita. O objectivo dos professores é, obviamente, que estas duas primeiras fases se desenrolem sem percalços e sejam tão breves quanto possível. O pronto início da lição tem como pressuposto: a preparação prévia da lição; o estabelecimento de rotinas que os alunos podem seguir de forma autónoma, de modo que eles próprios possam começar imediatamente a trabalhar sem necessitarem de instruções específicas dos professores; procurar começar a aula com um sinal positivo.

c) a variedade das atividades;

Assegurar uma variedade de atividades ao longo do tempo da aula, tornando-a mais viva e interessante para os alunos, é essencial ao pressuposto em questão.

d) o acesso aos materiais;

Surgem normalmente problemas quando os alunos não dispõem dos materiais necessários para a realização das tarefas.

e) a disposição da sala de aula;

A variedade de atividades pressupõe que a disposição da sala não seja sempre a mesma e que se possam conceber diferentes arranjos e combinações em função das atividades e do tipo de agrupamento dos alunos (trabalho individual, a pares, em pequenos grupos). Muitos professores ensinam objetivamente aos alunos como proceder, explicando e treinando as alterações do arranjo das salas, tornando estas transições mais fluidas e rápidas, prevenindo assim incidentes.


Avaliação/Responsabilização

Este princípio significa que as questões relacionadas com o controle, a avaliação e a correcção de comportamentos ou desempenhos desajustados não estão sempre sob a única alçada dos professores e que, de um ponto de vista desenvolvimental, é desejável que o controle e monitorização dos comportamentos sejam interiorizados e realizados de forma autónoma pelos alunos. Assim, assume-se como objectivo do ensino, encorajar a responsabilização e auto-avaliação dos alunos, recorrendo-se para este efeito a, por exemplo, fichas em que o aluno regista os seus progressos relativos a determinados comportamentos.
A ficha de auto-avaliação na sala de aula atrás referida é um exemplo. Mas gostaríamos ainda de referir exemplos de Webster-Stratton (1999) que ilustram comportamentos concretos. Por exemplo, trabalhar com afinco, levantar a mão antes de falar, conferir o trabalho antes de o entregar. Trata-se, portanto, de ensinar aos alunos comportamentos que são considerados desejáveis (um programa de desenvolvimento comportamental) e, seguidamente, encontrar e usar formas de responsabilizar os próprios alunos pela monitorização dos seus próprios progressos. Esta autora sugere a utilização de figuras, ilustrando comportamentos considerados desejáveis, acompanhados de uma grelha de registo onde figuram os dias da semana. O que se pede aos alunos é que registem uma auto-apreciação sobre os seus próprios desempenhos relativos a estes comportamentos ao longo da semana. A utilização de fichas mostra aos alunos quais os comportamentos adequados e responsabiliza-os pela avaliação dos seus desempenhos. Ao mesmo tempo torna possível para os alunos uma representação concreta dos progressos realizados.


Construtividade

A Construtividade diz respeito à geração de um clima de confiança, cooperação e competência entre os alunos, isto é, reforçar a auto-confiança nas suas capacidades para aprender e desenvolver um espírito de entreajuda, e visa ganhar a cooperação dos alunos. Apontam-se algumas pistas para a implementar: construir sobre os conhecimentos dos alunos e garantir oportunidades de sucesso (cf., por exemplo, Vaz da Silva, 1998); encorajar os alunos a reconhecerem os seus sucessos, como já vimos atrás; promover disposições e capacidades de cooperação, através da organização de atividades, apelando ao trabalho a pares e em pequenos grupos e promovendo a tutoria entre pares (cf., por exemplo, Greenwood, Delquadri & Hall, 1989).


Responsabilidade Coletiva

Este quinto princípio sublinha a importância do desenvolvimento de conceitos de responsabilidade social e da possibilidade de a promover no âmbito da escola e da sala de aula, através da participação dos alunos na definição e implementação de regras; da ajuda aos alunos na compreensão dos seus problemas de comportamento e como fazer para os melhorar.
Como realçam Cole Visser e Upton (1998), não existem competências especiais para se ensinar crianças e jovens com dificuldades emocionais e comportamentais que não façam parte do conjunto de competências que é possível identificar nos “bons professores”. Os cinco princípios de gestão atrás elencados não são algo de essencialmente novo ou especial; a nossa intenção foi a de os clarificar e, nesse processo, mostrar alguns exemplos de como podem ser implementados.
Ainscow (1995) apontou como prioridade para a construção de escolas inclusivas, a ajuda aos professores na organização das suas salas de aula de modo a garantir a aprendizagem de todos os alunos. Esperamos que os professores encontrem nesses exemplos fontes de inspiração para as suas práticas.


Este texto, da autoria de Francisco Vaz da Silva, pode ser consultado na sua totalidade no livro Necessidades Educativas Especiais: Dificuldades da Criança ou da Escola?, publicado pela Texto Editores (2007).

Francisco Vaz da Silva, Professor Adjunto na Escola Superior de Educação de Lisboa, com formação base em Psicologia e uma especialização em crianças surdas pelo Institut voor Doven da Holanda, é titular do grau de mestre em Educação pelo Instituto de Educação da Universidade de Londres.